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Aula de etiqueta. Isso ainda existe?

Por incrível que pareça, existe sim, para ensinar a quem subiu na vida a velha ordem dos talheres e um novo traquejo social: a arte de segurar o decote, não se exibir demais e controlar a maledicência.

aula de etiqueta ainda existe

Antigamente, as alunas eram as senhoritas de boas famílias empenhadas em se esmerar na arte de receber e ser recebidas com perfeição. Hoje, quem frequenta são mulheres, principalmente, e homens que subiram na vida e têm inteligência suficiente para perceber que precisam polir as maneiras. Com novo foco e velhos ensinamentos, as aulas de etiqueta continuam não só a existir, como a atrair bom público na camada da população que está emergindo para uma vida com mais dinheiro e mais compromissos sociais (por favor, nunca, jamais, digam eventos). Os modos à mesa ainda são a peça de resistência dos cursos, mas a clientela ascendente demanda outros quesitos – boa parte das aulas versa sobre a necessidade de um toque de sutileza nas relações sociais. “Mais do que ensinar como usar corretamente os talheres, eu mostro a meus alunos como desfrutar seu novo patrimônio sem cair na armadilha do esnobismo”, explica Virgínia Gargiulo, professora de etiqueta de São Paulo. Virgínia, que mantém no telhado da casa vistosa no bairro do Morumbi uma placa com os dizeres “Aulas de etiqueta. Mude sua vida” e em um andar inteiro da casa várias mesas permanentemente montadas para explicar os mistérios do mundo das taças e talheres, conta que sua experiência no savoir-faire é fundamentada em uma rica história de vida. “Tive governanta alemã e estudei em colégio suíço. Sou afilhada de Assis Chateaubriand, meu pai fundou a TV Tupi e minha mãe, bem, minha mãe recebia”, enumera. Com a chegada de tempos menos prósperos, ela resolveu compartilhar seus conhecimentos na área. Os cursos particulares de etiqueta geralmente são dados em módulos de quatro horas, a 250 reais cada um, incluindo pelo menos duas refeições com os professores. Os alunos também treinam para emergências, como o jeito certo de se abaixar para pegar algum objeto caído, como explica a atriz Regina Costa, 34, pupila de Virgínia: “Você tem de descer com as costas retinhas, mesmo que esteja com salto 15, dobrando apenas os joelhos. Jamais, jamais mesmo, pode empinar o bumbum para cima”.

Outro solicitado professor de etiqueta de São Paulo, Fabio Arruda, acostumado a dar aulas para emergentes do país todo, conta que em suas palestras as alunas gritam de surpresa quando ele menciona atitudes que elas repetem a toda hora, sem se dar conta de que cometem gafes. “Um exemplo muito comum é quando a mulher é elogiada por sua roupa e responde: foi tão baratinha. Ela acaba de desconsiderar o elogio que recebeu”, repreende. Segundo seu olho crítico, festas são o cenário por excelência de escorregões na finesse. Um caso clássico é o “da mulher que entra se ajeitando, puxando a saia para baixo, o decote para cima, esticando o pescoço para ver quem está na festa; nem fala direito com os anfitriões”. Com a experiência de ter sido cerimonialista da Universidade de São Paulo de 1946 a 1978, de ter ciceroneado personalidades como Indira Gandhi e o então príncipe Akihito do Japão, escrito catorze livros e, agora, aos 90 anos, estar à frente de um curso de extensão universitária a distância sobre o tema, Nelson Speers acha que os cursos de etiqueta têm muito salão para se expandir. “Se o Brasil continuar crescendo nesse ritmo, as classes mais pobres vão diminuir e essas pessoas vão entrar no universo dos ricos. Terão de aprender não só novos hábitos, como também a não pisar nos mais humildes, prática que, infelizmente, detecto nos emergentes”, admoesta. Perguntado sobre que recomendação daria, antes de mais nada, a pessoas com pouco traquejo social, responde: “Às mulheres, que saibam levar a roupa, sem precisar segurar o decote cada vez que se dirigem a alguém. Aos homens, que evitem pôr a mão no braço, tocar de um modo geral, a pessoa com quem conversam”.

Nadia ensinou etiqueta a filha

LIÇÃO DE CASA – Nadia ensinou à filha Naysa “como se sentar, andar e se portar”.

O mundo dos executivos em ascensão tem sido um dos nichos mais produtivos para outra professora de etiqueta, Nádia Micherif, de Belo Horizonte, que chega a comparecer a reuniões e jantares dos pupilos, para observar seu comportamento e posteriormente recomendar os retoques necessários. “Ela me ensinou que não devo encher a taça de vinho dos meus convidados até a borda. Dois dedinhos bastam”, diz o empresário José Carneiro, que, aos 68 anos e por sugestão de Nádia, decidiu dar uma “lapidada” também no visual. “Fiz uma plástica nos olhos e aproveitei para colocar uns preenchimentozinhos no rosto. Decidi gastar bem o dinheiro que ganhei nos últimos anos. Não vou deixar para genro, não”, brinca ele, com bom humor. Uma das aulas teóricas de Nádia relata como tratar autoridades a partir da experiência própria. “Sou amiga de longa data do vice-presidente José Alencar. Mas, sempre que nos encontramos em público, eu estendo a mão. É ele quem vem e me abraça. É a pessoa mais importante da relação que dá o sinal para a informalidade”, ensina. Nádia, ex-miss, instilou na filha Naysa, ex-miss (Brasil Mirim), todo o seu cabedal de sabedoria, a começar pela exigente autodisciplina da postura. “Ensinei-a a se sentar, andar e se portar. Hoje é minha assistente nos cursos que dou para misses. É espertíssima, uma cobrinha”, elogia Nádia.

Na etiqueta dos novos tempos, a professora Virgínia menciona, além das maneiras à mesa, da postura e do controle no exibicionismo, a necessidade de quebrar um hábito horripilante: falar mal dos outros. Quer dizer, sentar a língua sem a obrigatória sutileza. “É claro que falar mal da vida alheia acontece em qualquer classe, mas sempre tenho de ensinar a minhas alunas que não podem espalhar intrigas incontidamente, ficar destrinchando a vida das outras como se fosse um frango”, esbraveja. Na mesma aula ela explica que é de bom-tom pensar antes de falar e que o que passa por autenticidade muitas vezes é apenas ignorância das regras de convivência. “Uma frase que eu odeio é: ‘Sou muito sincera. Falo tudo que me vem à cabeça para não ter um câncer depois’”, diz Virgínia. Detonar os outros em nome da saúde própria, além de não ter nenhum fundamento médico, definitivamente não é fino.

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